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coitadinhodocrocodilo



Sábado, 02.03.13

2 de Março

Pedro,

Hoje tinha um compromisso às quatro da tarde, em Lisboa. O comboio em Oeiras lembrava-me o começo de semana, às oito da manhã. Percebi que o compromisso não era só meu. Saí no meio de uma Amazónia de gente. Uma floresta sem fim, densa, repleta de seres das mais variadas espécies. Uma fauna onde predominavam os fracos e oprimidos, os desfavorecidos, os desesperados, os angustiados, os revoltados, os velhos, cansados de ser maltratados. Todos a lutar pelo mesmo: a sobrevivência, a dignidade e a soberania de um povo.

Várias causas, mas uma só voz, um só protesto, um pedido: não afundes o país. Um país que tem fome, que tem dívidas, que tem vontade de trabalhar, que quer respirar. O teu país, Pedro, está a morrer. Mas lutará até ao fim. Com um cravo na mão, um ideal na cabeça, uma música na boca e uma paixão no coração.

Pergunto-me como é que consegues explicar às tuas filhas porque apedrejas o país onde nasceram. Escuta os passos firmes das pessoas que sendo pobres no bolso, não o são de espírito e coragem. Vê como saem do conforto do sofá para encarar o frio de peito aberto e gritar de raiva.

Afastei-me do seio de uma massa de gente desiludida, ainda com mais vontade de lutar. Por mim, que não tenho emprego, pelos meus pais, que já travaram outra luta há quarenta anos e ainda têm forças para continuar a lutar, pelos meus filhos, que não têm futuro, pelos meus amigos, pelos que não têm voz, pelos que já não têm forças, pelos que se acham intocáveis, pelos que acham não têm de lutar, e mesmo pelos que decidiram, em consciência, permanecer no conforto do sofá. Pela geração ultramar, pela geração 25 de Abril, pela geração rasca (com muito orgulho), pela geração 600, pela geração dos que têm que nascer em Espanha porque é mais perto. Por esta geração que depende da escola para comer.

Entrei de novo no comboio e fechei os olhos. Regressei ao único sítio do mundo onde tu, Pedro, não me consegues atingir: os meus sonhos.

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por coitadinhodocrocodilo às 22:20


2 comentários

De Susana a 03.03.2013 às 02:52

bolas, Patricia... já te leio desde o início, mas não posso deixar de comentar este teu desabafo. tinha saudades de ler uma coisa assim: sentida sem ser lamechas, sincera sem ser ofensiva.
um beijinho grande para vocês.

De Carlos a 05.03.2013 às 12:02

Eu que já me senti intocável e fui logo de boca; eu que me levantei com sorte e com sorte lá consegui um trabalho que, em muitos aspectos, é melhor que o outro (pelo menos, tento convencer-me disso); eu que sou de todas as gerações e já gerei outra...estou contigo, minha querida, querida, Pati.

Não sei se vamos vencer, mas só nos derrotam se quisermos.

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