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coitadinhodocrocodilo



Domingo, 24.03.13

Viver no funil

Ainda só passaram três meses desde que estou sem emprego (como diz uma amiga, eu trabalho tenho, e muito, não tenho é emprego) e já ando farta de tanta pergunta: se já arranjei alguma coisa, se já me mexi, se vi anúncios, se já mandei CVs, se já sei o que quero. A resposta é SIM às primeiras questões, NÃO à última. Ando desorientada com tanta mediocridade, tão pouca oferta, tão pouca qualidade, tão pouco salário. Já mandei muitos currículos, a maior parte para empresas que faço vigas para não me chamarem. Já achei que queria a área do sobreendividamento, a área social, área do ambiente, qualquer coisa, desde que fosse ao pé de casa, qualquer coisa, desde que fosse a partir de casa, escrever livros, negócio próprio, um sem número de ideias voadoras. Vão e vêm, à velocidade do neurónio.

Ando desiludida com o trabalho gratuito mascarado de voluntariado. Ando desiludida por alguém achar isso uma mais-valia para o curriculum. Ando desiludida por alguém achar que tenho que fazer um rewind de 15 anos, no filme da minha vida, e aceitar fazer estágios não remunerados. Eu não tenho 20 anos. Isso é um insulto à minha inteligência e à minha experiência profissional. E devia ser um insulto àqueles que o preconizam. Porque hoje eu, amanhã eles ou a mulher deles, ou o filho deles, ou o melhor amigo deles.

O problema parece ser que as pessoas que defendem o trabalho barato e sem regalias são os que ganham muito acima da média. Se a desculpa é a falta de qualificação, vamos reflectir: a senhora que limpava a minha casa ganhava perto de mil euros ao fim do mês, coisa que só conseguirei atingir novamente daqui a mais 15 anos. É como jogar monopoly e passar pela casa da partida 15 vezes. Ela não tinha qualificações. Na realidade, mal sabia construir uma frase sem decapitar sujeitos e predicados. Portanto, há quem não seja qualificado e ganhe dinheiro.

Acho que vou experimentar uma coisa muito na moda: vou pôr um anúncio a aceitar voluntários para higienistas. Deverá limpar a minha casa de graça durante uns meses (ou até se fartar) e em troca, ofereço integração em equipa dinâmica, bom ambiente de trabalho e a possibilidade de assinar contrato comigo, quiçá daqui a 15 anos. Porque o que interessa é não estar parado, é adquirir experiência profissional, mesmo que não leve a lado nenhum, mesmo que nos chulem até ao tutano. Estou certa que alguém vai achar interessante.

Toda esta situação assemelha-se a um funil. Quando chegar à parte estreita, vou ter que aceitar um emprego com condições cuja semelhança com o pré-25 de Abril será pura coincidência. Bem-aventurados os que nunca vão saber o que é viver num funil.

 

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por coitadinhodocrocodilo às 08:43


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